A faixa da esquerda

Faixa da esquerda, porque tantos teimam em flutuar sobre o teu dorso? Percorrê-la não é um problema em si, principalmente quando se está sozinho na via. Porém, esse tipo de situação flerta com o impossível. O trânsito é orgânico, somos como hemácias em vasos de diversos tamanhos, e, por isso, alguns preceitos devem ser observados. Devemos doar segundos em prol do coletivo, em prol da fluidez.

Deixá-la respirar é saudável, os carros fluem, os xingamentos abortados na sua origem.

Em alguns lugares, acariciá-la com borrachas negras, apenas em ultrapassagens. Nas bandas de cá, menos xiita, podemos fazê-lo ao bel prazer, contudo devemos ceder a passagem para os iguais mais apressados. Lembre-se disso. Iguais. Hemácias.

Mas justamente aí o problema acontece.

Alguns mudam de faixa antes que os faróis brancos alheios possam beliscar seus glúteos torneados. Estrelinha na agenda para eles.

Outros, dispersos ou entretidos em seus (not so)smartphones, alheios aos outros (nem sabe que eles existem), alheios ao bom senso da convivência em comunidade, continuam seu trajeto inconsciente sobre você. Este ato retarda toda a fluência desejada. Fluência esta que és música sussurrada em teus ouvidos.

A discórdia então é semeada.

Palavras impróprias são proferidas, mães puras e trabalhadoras se tornam meretrizes e destruidoras de lares em questões de instantes. Apenas devido a ausência de mudança do rumo do leme três graus à direita.

Rai du mei, carai!

Esse segundo grupo então se divide em dois. Aqueles que percebem o erro e mudam de faixa. Abandonando-te, claro. Mas por uma ótima razão. E outros, que, inflados pelo ego, seguram mais forte o volante, olham de relance para o retrovisor, cerram os olhos e e continuam sobre ti.

Essa é a pior raça. Já fui um deles algumas vezes, reconheço. Mas me desfiliei. Alguns ainda aceleram quando tentam passá-los utilizando tuas vizinhas orientais.

Fi di corno!

O puta-que-pariu é agarrado. Mulheres brigam com os maridos. Você é louco!! O caçula fica com medo. O pássaro de ferro dá uma piscada.

Tudo por causa do ego. Ou por babaquice mesmo.

Mas na verdade, perseguida faixa, você é mais do que uma convenção de trânsito. Em cima de você, as pessoas mostram certos traços de sua personalidade. As suas formas de se relacionarem, as suas formas de perceberem e interagirem com o próximo, com a coletividade.

O que as pessoas fazem sobre você, elas fazem também nos relacionamentos. Alguns estão impedindo alguém de passar, de desenvolver-se, de ir mais longe, de sair fora.

Pura metáfora da vida real.

 

 

 

 

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About Hugo De Marco

Hugo De Marco tem 34 anos mas parecer ter 28. Além de humilde e impaciente, é servidor público de profissão, historiador por graduação e são-paulino de coração. Ama a sua noiva e seus dois filhos (um ainda no forno). Além disso, também gosta de café, semear ironias, metáforas e, claro, a discórdia. Sempre teve as suas piores notas em Redação (por volta de 9,0). Apesar disso, com o tempo começou a estabelecer uma relação de amor com a escrita, chegando até ao ridículo de se referir em 3ª pessoa. Ansioso por natureza e palhaço por opção, foi votado como o mais comunicativo da 4ª série, ocasião em que falava merda no fundo da sala no intuito se autopromover. Pegou vício pela coisa e agora está aqui.
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