Brexit?

Como alguns de vocês devem saber, o Reino Unido, por meio de um plebiscito, votou a favor de sua saída da União Européia. Digo melhor, todos sabem, pois isso foi discutido abertamente em mesas de bares, portas de igrejas e, principalmente, nas redes sociais.

Reconheço que esse texto só está sendo (foi) escrito devido a essa manifestação exarcebada por parte de meus pares brasileiros. E pelos meus pares brasileiros que moram e não tem nenhuma intenção de morar na Europa no curto ou médio prazo. É muita opinião sendo dada. É muito argumento definindo o que os outros devem saber. É muito pitaco na receita dos outros.

Também reconheço que li pouco sobre o assunto. Não tenho muita propriedade, mas este não é o cerne do texto.

Primeiramente, vou deixar bem claro, se eu fosse inglês, muito provavelmente votaria contra a saída. Afinal tenho 34 anos — entre 25 e 49 anos o voto “remain” atingiu 54% — e tenho nível superior — 72%. Mas isso é pura especulação. É apenas uma inferência estatística. A realidade, quando de fato é vivida, é muito diferente.

É muito fácil especular quando se é servidor público, estabilizado, morando a 9.000 km do epicentro da decisão. Quero ver você, operário, com dois filhos pequenos, morando num bairro predominantemente muçulmano, vendo seu cunhado ser demitido para a contratação de um estrangeiro. Já ouviu falar de empatia? Use-a neste momento. Mas não em relação ao imigrante, mas sim àquele que tem poder de voto.

Porque esse cidadão tem o perfil de quem votou a favor da saída. Quanto mais velho, quanto menos alfabetizado, quanto menos especializado no campo profissional, Brexit na cabeça.

Isso sem contar na explosão do tamanho e da quantidade de bairros de predominância de cultura islâmica. Lugares onde muitas vezes a sharia – lei islâmica – é aplicada de forma intensa. Muitas vezes se sobrepondo às leis inglesas. Já ocorreram casos onde adolescentes desvirginadas pelas pessoas erradas fossem mortas pelos próprios familiares em nome da honra de sua família. E o pior, sem punição aos pais, tios, primos ou irmãos. Silêncio por parte da comunidade, silêncio por parte das autoridades.

Realmente é surpreendente a quantidade de estrangeiros na Inglaterra. Uma simples conexão no aeroporto de Heatrow é necessária para se fazer essa constatação. Indianos, paquistaneses, alemães e jamaicanos. Uns pouco desejados, outros menos ainda. Um balaio de gato.

Mas independente da intenção de voto, se a favor ou contra, uma coisa é fato: o modelo da União Européia é anacrônico. Idealizada desde o pós-Segunda Guerra, foi efetivamente formatada e concretizada nos anos 90, pós-queda do muro de Berlim. Integrou-se a Europa (não só por isso) no intuito de diminuir os conflitos por recursos naturais. Se há um livre comércio, não tem como eu sobretaxar o seu tão necessário carvão.

Outros tempos, quando a liberdade individual era festejada, o trânsito de pessoas na Europa era benquisto, o amor estava no ar. Agora não, vivemos o mundo pós 11 de setembro, evento que mudou praticamente todos os paradigmas referentes à segurança nacional, espionagem e migração.

Essa transformação de contexto também foi intensificada com a onda de revoluções de países da África e Oriente Médio – onda influenciada amplamente pelo uso das redes sociais – a qual mudou a soberania e a relativa estabilidade político-econômico-social de vários países, e gerou uma grande onda migratória rumo à Europa.

Mas o próprio terrorismo mudou. Devido aos grandes ataques a territórios controlados por grupos terroristas ou que apoiam esses – Estado Islâmico, Al Qaeda, Taleban -, essas organizações perderam parte desses territórios e mudaram de tática. O treinamento, a doutrinação de recrutas acontece em solo estrangeiro amparada por um grande projeto de propaganda que se propaga na internet.

O indivíduo, muitas vezes natural da França, Bélgica, Espanha, descontente com toda a sua situação, vê no ideal do radicalismo islâmico a razão da sua vida. É nesse momento que a propaganda age, inserindo os ideais e as técnicas para a matança. As células terroristas, agora amplamente caçadas pela espionagem, perderam a sua eficácia. Reduziram-se a simples organelas independente. Mitrocôndrias que explodem estações. Lisossomos que esfaqueiam pela rua.

Tudo isso influenciou na decisão. Gera, obviamente um processo de retrocesso na abertura dos países, o que é recorrente e normal em toda a história humana. É um movimento de maré, hora aumenta, hora diminui. No final do século XIX e início do século XX vivemos uma explosão do liberalismo econômico. Quadro que se reverteu principalmente pela 1ª Grande Guerra e pelo crack da bolsa de NY. A Argentina era o país com o 5º maior renda per capita no mundo devido às exportações de carne. Sofreu um enorme baque com a grande taxação sobre a importação – principalmente da Inglaterra. Não reinvestiu o capital angariado no comércio exterior, não diversificou a sua economia, se lascou. Temos vários exemplos na História.

Porém, um processo em que se viu pouca retração na Inglaterra foi a evolução da democracia. É um processo lento e gradual que dura há vários séculos. Intensificou-se bastante com o aumento do poder do parlamento em detrimento ao poder da família monárquica. Porém, essa soberania foi diminuída com a entrada do Reino Unido na Comunidade Européia, onde várias decisões afetam o cotidiano do bretão.

E lá democracia é uma coisa séria. É uma ideologia enraizada, não um aparato demagógico que vemos muito pelas bandas de cá, onde a defesa desse ideal muitas vezes se dá porque é a lógica que melhor cabe no meu projeto de poder e não porque eu realmente acredito nela.

Justamente por ser um país com a democracia desenvolvida, essa manobra foi eleita. O Reino Unido, utilizando-se de sua geografia, voltará a observar a Europa de fora, por cima, assim como no globo.. Geografia esta que impediu a invasão de Napoleão, bloqueou o avanço de Hitler. Nada mais lógico, neste momento, que a ruptura. Voltarei a ser ilha de fato. A geografia é determinante em toda a História e agora ela está influenciando de novo. Pode ter certeza.

Assim como as redes sociais também estão influenciado. Ainda mais com esses algoritmos utilizados, onde visualizamos em nossa tela azul apenas aquilo que eu gosto, aquilo que eu aprovo, aquilo que eu admiro. É praticamente uma masturbação de reforço ideológico. Recebo praticamente apenas opiniões que corroboram a minha. Fica difícil de mudá-la. Espero que todos lavem as mãos antes de voltar a digitar.

E daí surge outro problema das opiniões proferidas por aqui em além-mar. Quase não recebemos informações primárias para embasar o nosso posicionamento. A grande maioria são artigos de opinião, onde já se passaram vários filtros de interpretação. Querendo ou não somos muito influenciados. Mas muito mesmo.

Então, meu querido, é muito fácil criticar o agigantamento da extrema direita sem estar lá. É muito fácil criticar o Reino Unido, argumentando que é um país filha da puta com um passado imperialista  e que por isso deve agora abrir suas fronteiras para os imigrantes. Você acha mesmo que o trabalhador médio inglês se importa com esse passado? Esse papo de dívida histórica é um dos conceitos mais baixos que já inventaram. Nós vivemos o presente e podemos nos preparar para o futuro. Essa é a verdade. Nós devemos nos preocupar com os nossos filhos, não com os nossos supostos antepassados. 
Então, Reino Unido, posso não concordar com a sua opção, mas tiro a cartola por ela porque a entendo. Foi uma baita decisão, que talvez gerará pontos negativos. Mas quem pode dizer que a permanência também não geraria?

Advertisements

About Hugo De Marco

Hugo De Marco tem 34 anos mas parecer ter 28. Além de humilde e impaciente, é servidor público de profissão, historiador por graduação e são-paulino de coração. Ama a sua noiva e seus dois filhos (um ainda no forno). Além disso, também gosta de café, semear ironias, metáforas e, claro, a discórdia. Sempre teve as suas piores notas em Redação (por volta de 9,0). Apesar disso, com o tempo começou a estabelecer uma relação de amor com a escrita, chegando até ao ridículo de se referir em 3ª pessoa. Ansioso por natureza e palhaço por opção, foi votado como o mais comunicativo da 4ª série, ocasião em que falava merda no fundo da sala no intuito se autopromover. Pegou vício pela coisa e agora está aqui.
This entry was posted in artigo de opinião, Uncategorized and tagged , , , , , , , , , . Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s