A realidade das torcidas organizadas

O ano: 1998. Gamão campeão da série B. Eu estava lá no Manézão, atrás do gol, e vi de camarote (na verdade, da extinta geral) a pintura de Rodrigo Beckham contra o Londrina que sacramentou a entrada do Alviverde na elite do futebol nacional.

Naquele momento eu não sabia, mas aquele título iria mudar um pouco a minha vida. Aquele título abriria as portas para a minha entrada no mundo das torcidas organizadas. Pois eu, são-paulino, sempre fui muito de acompanhar futebol pela televisão. O São Paulo vez ou outra jogava por aqui (Brasília), mas, geralmente, em torneios sem grande importância. Eu estava sempre lá, mas era raro.

Antes disso cheguei a ver jogos no Couto Pereira (apesar de não me lembrar), Mineirão, Maracanã e na Ilha do Retiro (Recife). Inclusive cheguei a ver Juninho Pernambucano pelo Sport. Se bem que na época ele não era conhecido ainda como Pernambucano.

Porém com a entrada do Gama na primeira divisão, passamos a ter vários jogos em Brasília num mesmo ano. E com grande importância acima de tudo. Alguns amigos então passaram a fazer parte da Inferno Verde, uma das torcidas organizadas do time. Segui o fluxo e comecei a ir também.

Porque mulek é assim. Não tem jeito. Faz parte do grupo, acompanha o grupo. Ainda mais numa atividade integrada ao futebol, o que sempre amei muito. Não me lembro qual era o jogo, mas me lembro da sensação. Era bom pra caralho. Apesar da torcida ser pequena, a festa era grande. Quem já foi a um estádio sabe.

Então virei fiel. Na maioria dos jogos, estava lá, eu, dentro da Inferno Verde. Cantando gritos de apoio, balançando balões, acendendo sinalizadores, xingando de viado o bandeirinha filha da puta. Se sabia o nome de quatro jogadores era muito. E olhe que eu era um dos que mais sabia.

É claro que não tardou a começarem as tretas, as porradas. Porque, tipo, é impressionante o tanto de coisas de podem acontecer num mesmo jogo. Mas antes de contar isso, acho melhor explicar um pouco do universo das torcidas.

É uma realidade política complexa. Disso eu não tenho dúvida. Cada time possui várias torcidas e cada torcida possui várias divisões internas. E essas divisões tem um nome diferente em cada organiza. Podem se chamar Divisão mesmo, Distrito, Canil, Comando etc. E as relações de poder, inclusive conflitos,  acontecem dentro dessas divisões. É meio surreal.

Eu percebia bastante a intensidade dos egos dos dirigentes dessas torcidas. De fato, eles utilizavam os integrantes como massa de manobra de acordo com os seus interesses. E nisso você interpretar como porrada mesmo. Porque ser dirigente de uma torcida dessa é ser o centro das atenções. Você tem um exército nas mãos, as mensalidades dos integrantes, as Maria-Rojão querem  dar para você ter um relacionamento romântico com você. É sinistro.

E os dirigentes dos clubes alimentam o sistema. Dão ingresso para os chefes da torcida (aumentando o supra citado poder), financiam rojões, bancam transporte locais, estaduais e até internacionais. São poucos que batem de frente e quando o fazem geralmente se dão mal.

Uma vez, fui a um churrasco de aniversário de uma torcida organizada em Goiânia. Churrasco grande, afinal era da maior torcida organizada de lá. No final do evento houve tiroteio, em virtude de rixa entre divisões. Corre-corre, gritaria, todos da mesma torcida organizada.

Outra coisa recorrente eram os acordos de união entre torcidas. Torcidas estas que podiam ser de times diferente ou então de um mesmo time. Em 2002, havia 3 principais torcidas organizadas do gama. Inferno Verde, Força Jovem e Comando Verde (a que eu pertencia e que se originou a partir de uma dissidência da  primeira). Num ano estávamos trocando porrada contra a Força, no outro estávamos de mãos dadas. Muito surreal.

As torcidas de outros estados também se correspondem. Na minha época pré-orkut, as correspondências eram feitas por meio de carta mesmo. Troca de camisetas aconteciam e acontecem ainda. Rola um sentimento de amizade. Quando você vai a uma outra cidade e lá há uma torcida amiga, você é super bem recebido.

Mas também tem as torcidas inimigas de outros estados. E quando se encontram, faixas e camisas roubadas são troféus e as suas imagens são compartilhadas como prêmios em redes sociais. Na minha época era no flogão. Muito lindo!!

Participei de algumas brigas. Porque, vou te dizer, quando você está no meio do seu grupo, você fica poderoso. Não sabia brigar, nem nunca soube, mas sempre estava lá. Eu era tipo o Gavião Arqueiro dos Vingadores, tava lá só para fazer figuração. Mas estava. E estava correndo risco. Dos grandes.

Uma vez estávamos no Bezerrão, chegamos atrasados e o jogo já estava rolando. Tivemos de passar na geral, no setor da Força. Neguim era muito abusado. Pedimos e a porrada veio. Na verdade nem porrada foi direito. Os moleques da força desceram, ficamos frente a frente e eles acenderam um rojão. Miraram na nossa reta. O tiro veio e acertou na careca negra de um amigo meu. O projétil ricocheteou num ângulo de 37º NW e estorou a um metro da sua cabeça. Ele se tornou então um unicórnio negro, o primeiro a aparecer em público em toda a História. E logo no Gama!!!

Na saída desse jogo, tivemos que pegar ônibus normal, já que o nosso contratado foi apedrejado. Indo em direção à parada, um batalhão da polícia montada nos perseguiu. Quando nos alcançou, o cavalo de um deles se assustou com a minha impressionante presença, patinou no asfalto e caiu perante a mim. O cavalo se levantou bem antes do seu cavalheiro e quando estava prestes a fugir de mim, eu segurei a rédea e a entreguei ao seu puliça. Devido a este ato nobre, fui liberado do baculejo que aconteceu a seguir. Essa revista foi tão intensa que alguns colegas perderam a virgindade na ocasião.

Mas escrevi tudo isso para exemplificar como tive sorte. Com certeza, alguns dos que morreram nos últimos anos estavam em situações menos perigosas do que as que eu já me coloquei. Você muitas vezes vai no impulso da coletividade e entra em situações que não tem como voltar atrás. Sai correndo atrás de outra galera, chega lá, tem mais de 100. Alguns armados com ferro, madeira ou pedras. Se correr, você vai ser tirado de zé ruela. Só pode correr se geral correr. Aí pode.

Era muito inconsequência.

Mas eu sou da classe média. Escola particular. Universidade pública. Aquilo era puro divertimento para mim. Mas  grande parte daqueles que são de torcida organizada é de origem pobre. O cara quer extravasar. Fica poderoso no meio do grupo e está pouco se fodendo. E além disso há o principal problema que eu percebo. Ele pode fazer o que quer, que ele sabe que vai sair impune. A impunidade é a grande certeza. Morrer de paulada é incerteza, proporcionalmente acontece com poucos. A certeza é a impunidade.

Desde que eu me entendo por gente, pessoas são mortas em estádio de futebol e em suas redondezas. Ninguém puxa cadeia. Somos reféns desse processo penal anacrônico, permissivo e que proporciona uma atividade criminal lucrativa. Ainda mais se você for estelionatário. Vários estelionatários possuem ficha criminal maior que o mofado bandeirão da Comando no qual eu dormia embrulhado na volta dos jogos bêbado de Balalaika e/ou Roskoff.

Governo entra, governo sai, e a impunidade continua. O problema só vai ser resolvido quando realmente pessoas forem presas e por lá ficarem até o fim da sua pena. Está aí a Inglaterra dar o exemplo. Até o final dos anos 80, os hooligans tocavam o terror na Europa. Depois de uma SÉRIE de medidas, incluindo a exclusão de todos os times ingleses do torneios europeus por alguns anos e a identificação dos torcedores violentos, o futebol inglês entrou na rédea e hoje é a liga mais poderosa do mundo.

Não quero ser hipócrita nesse post. Fiz muita coisa da qual me arrependo, mas me diverti bastante. Olho para trás com um sentimento saudosista, mas tenho consciência que tive muita sorte. Mas muita sorte mesmo. Tive uma ótima educação por parte dos meus pais, mas estava lá trocando pancadaria como se numa guerra estivesse. Guerreando contra pessoas que hoje vejo como irmãos, que torciam para o mesmo time do que eu. Tudo ali era muito errado. Tudo hoje é muito errado. Cabe ao Estado realmente fazer a sua parte e parar de empurrar o problema com a barriga. Infelizmente o mal tem de ser extirpado pela raiz. Torcida organizada tem que ser abolida no Brasil.

unicornio_negro

(imagem em homenagem ao meu amigo, Unicórnio Negro)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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About Hugo De Marco

Hugo De Marco tem 34 anos mas parecer ter 28. Além de humilde e impaciente, é servidor público de profissão, historiador por graduação e são-paulino de coração. Ama a sua noiva e seus dois filhos (um ainda no forno). Além disso, também gosta de café, semear ironias, metáforas e, claro, a discórdia. Sempre teve as suas piores notas em Redação (por volta de 9,0). Apesar disso, com o tempo começou a estabelecer uma relação de amor com a escrita, chegando até ao ridículo de se referir em 3ª pessoa. Ansioso por natureza e palhaço por opção, foi votado como o mais comunicativo da 4ª série, ocasião em que falava merda no fundo da sala no intuito se autopromover. Pegou vício pela coisa e agora está aqui.
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